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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Voando Alto e Rápido

Outra razão pela qual mais potência nem sempre é uma boa coisa

O texto citado abaixo não é de minha autoria.  Foi escrito por um piloto americano, e eu apenas o traduzi algum tempo atrás.  Mandei-o por e-mail para vários amigos, mas nunca o publiquei, e nunca vi nada semelhante publicado em português.  Acho bastante interessante que meus amigos pilotos o leiam. Embora ele fale especialmente de um modelo de aeronave - o Van's RV-4 - ele é válido para qualquer aeronave.

"Eu me considero um piloto medianamente experiente, tendo cerca de 1400 horas em meu RV-4, 3000 em F-16 e muitas mais em outras (não tão divertidas) aeronaves. Entretanto, minha volta para casa do trabalho foi um pouco diferente hoje, e eu aprendi algo novo.

Eu estava no meu próprio RV-4 de 150 HP, retornando para a Flórida de um fim de semana voando F-16 no Alabama. Estava cruzando a 11.500’ em ar calmo e frio. Faltavam apenas 235 milhas para casa, mas o caminho à frente estava crivado de tempestades. Passando Thomasville, GA, as formações ficaram mais juntas, forçando-me a voar em curvas em volta dos cúmulos que iam muito acima da minha altitude. O controle de JAX estava me fornecendo atualizações contínuas do tempo, e com sua ajuda e boa visibilidade eu estava quase gostando dos meus zig-zags em volta das nuvens. Então, saindo de trás de uma nuvem, eu vi que minha passagem à frente havia ficado bem estreita e abaixo de minha altitude. Havia céu azul além dela.

Olhei para cima por alguns segundos para julgar as nuvens enquanto fazia um 360º em descida como já tinha feito um milhão de vezes antes no ar mais denso de 5.000’. Mas desta vez senti algo diferente – uma vibração de muito alta frequência. O stick sacudia na minha mão e toda a estrutura vibrava como se algo tivesse se soltado (Sintomas sugerindo fortemente flutuação dos profundores... N.E). Olhando o painel, descobri que estava com o nariz 15º baixado, inclinado para a direita 30º, cruzando 10.800’, com cerca de 2G e 185 nós. Imediatamente reduzi a potência e, suavemente, nivelei as asas. Abaixo de 175 nós a vibração cessou, então continuei através da passagem e aproei para casa. Passei uma boa parte do tempo restante olhando para trás, para ver se a cauda ainda estava lá. Após pousar, retirei a empenagem e examinei todos os pontos de fixação, cabos, dobradiças e a estrutura. Nem um arranhão.

Epílogo: fui para a Internet e pesquisei flutuação em aeronaves leves. Há alguns bons artigos sobre o assunto. Aparentemente eu devia saber que a 10.800’ minha Va a 2º Celsius e 185 nós indicados era acima de 236 nós. Isso é mais de 30 nós acima da Vne do RV-4!

Bem, eu sou um mimado piloto de F-16. Não há restrições de velocidade no F-16. Conheço meu RV-4 bastante bem, mas quantos de nós conhecemos nossas aeronaves acima de 10.000’? Eu sei que existe uma razão para o meu RV-4 ter uma Vne, e agora entendo porque esse limite muda com a altitude.

Há uma tendência atualmente para RVs mais potentes e velozes. Talvez os pilotos devam considerar cargas de projeto e limites antes de fazer isso. Minha experiência poderia ter acontecido com qualquer um. Eu tive sorte. O próximo talvez não tenha."

Nunca ouvi nenhum de meus instrutores chamar a atenção para este simples fato: a Vne se refere à Va, e NÃO à Vi!  Estamos acostumados a ler um intrumento que nos indica Vi, e quase todos os parâmetros importantes de vôo se referem à Vi: Stall (início dos arcos verde e branco), Cargas de Rajada (topo do arco verde), Velocidade de Manobra (linha azul).

Mas NÃO a Vne.  Esta depende da velocidade real de escoamento do ar sobre as superfícies, e é portanto expressa em Va.  Em um exemplo simples, a 8000' (que nem é uma altitude tão grande assim) uma Vi de 200kt corresponde à Va de 225kt.  Esta diferença pode facilmente nos levar acima da Vne sem nosso conhecimento, a não ser que tenhamos pleno conhecimento disto!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Icarus

- papa uniform juliet lima delta, autorizada decolagem imediata!

Estendo a mão para a manete de potência... aquele movimento firme até o fim.  Ouço o motor acordando... a pressão no assento, a pista começa a correr.

Olho para o lado e ali, ao lado da pista, está uma enorme fila de pioneiros acenando para mim, cada um com um largo sorriso no rosto.  Ícaro.  Da Vinci.  Santos Dumont.  Orville Wright.  Charles Lindbergh.  Amelia Earhart.  Chuck Yeager.  E tantos outros que não consigo mais reconhece-los.

A máquina parece mais ansiosa do que eu para deixar o solo.  Nem preciso puxar, ela sai do chão, o nariz levanta... somos livres!  Livres como todos esses pioneiros sonharam um dia.

Curvo para a proa desejada, e o céu gira ao meu redor.  A majestade do dia começando.  O sol mal nasceu, o horizonte está em fogo.  Uns poucos cirrus, bem lá no alto, tingem o céu de vermelho.

Ao meu lado, minha melhor amiga e companheira de viagem (esta e aquela maior, a Vida) sorri em silêncio.  Ela sente, como eu, a reverência a este ambiente celeste.

A máquina sobe como se quisesse alcançar o Sol, e como Ícaro derreter suas asas de cera.  Tenho que segurar seu ímpeto e estabilizar no nivel correto.

O motor caiu para um ronronar suave.  Parece satisfeito, contente de estar aqui.  O ar frio, o céu limpo, a visão do mundo passando abaixo de nós.  Não me parece estranho que em tantas culturas diferentes o céu seja o lugar dos deuses.  Nossa recompensa após a vida.

Relaxo curtindo o vôo.  Só quem voa conhece aquele relaxamento atento (parece incoerente, não?).  Você está relaxado, curtindo a vista e a sensação do vôo.  Mas qualquer grau de diferença na proa já é corrigido antes que você tenha consciência do que fez.  Qualquer diferença de meio tom no ronronar do motor e você corrige a manete sem nem notar.  Os olhos, curtindo toda a paisagem, ainda assim capturam qualquer variação anormal no painel.

E ainda tem gente que tem medo de voar... medo do paraíso???

- controle Rio, papa uniform juliet lima delta ingressando na terminal conforme plano
- juliet lima delta, mantenha corredor visual a dois mil pés
- ciente, manterá dois mil pés, lima delta
. . .
- juliet lima delta, chame torre sierra bravo juliet romeu em uno uno oito decimal quatro zero
- ciente, uno uno oito decimal quatro zero, obrigado e bom dia, lima delta livrando frequência
- torre sierra bravo juliet romeu, aqui papa uniform juliet lima delta ingressando no circuito
- juliet lima delta, pista em uso dois zero, autorizado o pouso
- ciente, pista dois zero para pouso, lima delta


A alegria do breve reencontro com os amigos se mistura com a tristeza do fim do vôo.  Deixar o céu.  Voltar ao mundo dos que não têm asas.

Tocamos o solo, o controle solo nos orienta, taxiamos para o pátio.

Ao fundo, junto ao terminal, os amigos nos acenam, alegres.

Junto a eles, vejo novamente os largos sorrisos.  Ícaro.  Da Vinci.  Santos Dumont.  Orville Wright...

Obrigado a essa longa fila de pioneiros que tornaram tudo isso possível.